terça-feira, 3 de abril de 2018

Conexões

Diversos estudos dizem que o ser humano busca, acima de tudo, pertencer e conectar-se. Faz sentido. Conectar-se com o outro é uma das jornadas mais fascinantes do nosso passeio por este planeta. Alguns entram na nossa vida com mais intensidade, alguns ficam por mais tempo, alguns compartilham os momentos mais íntimos, outros os mais alegres, outros os mais marcantes… É como se uma parte de todos que passaram pela minha vida tivesse ficado em mim e, da mesma forma, houvesse pedaços de mim espalhados pelo mundo, em busca de novas conexões.

E essas conexões ocorrem hoje das maneiras mais distintas, intensas e inusitadas. Nosso ritmo é tão alucinante que no tempo que leva para abrir o Instagram você já está íntimo de alguém. Basta ter seu nome e sobrenome e já posso saber onde você passou as férias, com quem jantou, quando nasceu, que música ouve. A vida íntima já não é, necessariamente, privada.

Aceleramos os relógios, e as relações parecem seguir no mesmo fast forward. Há não muitos anos, você se interessava por alguém, pedia o telefone, ligava uns dias depois, conversava, ligava outro dia, marcava algo. Semanas, meses se passavam até que o outro fizesse parte da sua vida. A intimidade era construída sobre os pilares do tempo. Quisemos tanto comprimir esse tempo que conseguimos: criamos as mais diversas plataformas para conectar pessoas com os mesmos interesses em apenas um clique. Viramos perfis em busca de matches. Você conhece alguém num aplicativo de relacionamento e por dois, três dias, outra pessoa invade sua vida com toda sua história, dúvidas, anseios, expectativas. Em 72 horas, ela sabe mais de você do que muitos à sua volta — e vice versa. Você compartilha seu cotidiano por fotos, áudios, textos. Vocês, enfim, se encontram, compartilham o que a conexão digital não permite — o jeito, o cheiro, a presença. Mas e depois? Como manter uma intimidade que atingiu o pico em três dias sem qualquer alicerce?

Por outro lado, será possível manter uma intimidade de anos atrás apenas por um fiapo digital? Em 2000, fiz um amigo que encontrava praticamente todos os dias durante cinco meses. Éramos intercambistas na Austrália e, desde que nos conhecemos na conexão em Auckland, nos tornamos amigos. Morávamos no mesmo bairro, estudávamos na mesma escola, íamos às mesmas festas: após dezesseis anos vivendo no mesmo lugar, com as mesmas relações, ele era meu primeiro grande novo amigo. Terminado o programa, voltamos ao Brasil: eu a São Paulo, ele a Porto Alegre.

Passaram-se oito anos até que nos encontrássemos novamente.

Pelos dois dias que ele esteve de passagem em São Paulo, atualizamos nossas vidas e saboreamos a amizade que poderia ter sido e que não foi. Ou será que foi? Será que cinco meses de intimidade são suficientes para segurar uma amizade de Facebook por uma vida inteira?

Por outro lado, será que existe uma intimidade intrínseca entre pessoas que mal se conhecem? Aos cinco anos de idade, recebi a visita de familiares da Itália, entre eles um primo de 13 anos. Não fossem as fotos dessa visita, não saberia sequer que já havíamos interagido alguma vez na vida. Quase trinta anos depois, nos reencontramos em Viena, onde ele vive. Sou recebido por esse completo estranho, que me leva para comer a que ele julga ser a melhor pizza da cidade. Passamos horas atualizando nossos trinta anos de vida por países diferentes em uma conversa que termina com a promessa de um novo reencontro. Em três dias, estávamos na sua cozinha, comendo spaghetti ao molho gorgonzola, conectados com familiares em todo o mundo pelo computador, antes de eu passar a noite no sofá. Completos estranhos e, ao mesmo tempo, primos íntimos de longa data.

Mas sempre que penso em conexão, me lembro de um episódio de muitos anos atrás que nada tem a ver a com o que normalmente associamos com intimidade.

Eu estava no aeroporto. Era provavelmente uma conexão a caminho de volta a Los Angeles. À minha frente, uma mulher do alto de seus quarenta anos chorava discretamente; ao seu lado, um homem da mesma idade, provavelmente seu marido, a consolava em silêncio, segurando sua mão. Ela respirou algumas vezes e parou de chorar. Alguns instantes se passaram, e agora era ele quem chorava, e ela quem o consolava. Não era um choro desesperado, mas um choro resignado, uma tristeza profunda para qual a única solução era deixar-se entristecer. Sem saber quem era aquele suposto casal ou o que havia acontecido para deixá-los assim, me conectei com sua dor e me entristeci também.

Da mesma forma aleatória que entraram na minha vida, os dois saíram algumas horas depois, rumo a sabe-se lá que cidade americana, deixando em mim um pedaço da sua intimidade: uma intimidade que não exigia palavras, apenas a presença e o silêncio; uma intimidade que expunha sua dor mais íntima a um completo estranho — eu.