sexta-feira, 5 de maio de 2017

Circo da vida

Quando uma amiga me convidou para assistir a um espetáculo de dança atlética numa noite de quinta-feira, não imaginava o impacto que ele teria nos dias que viriam. O espetáculo da companhia italiana Kataklo é certamente uma das coisas mais impressionantes a que já tive o prazer de assistir (ao lado de “O”, do Cirque du Soleil, onde artistas voam pelo palco de maneiras inimagináveis).
Uma das coisas que me fascinam na música e na dança é que não consigo racionalizar o que está acontecendo: eu apenas sinto. Como roteirista, é impossível desligar totalmente o intelecto ao assistir a um filme ou série de TV;  já a música e os movimentos do corpo me surpreendem a cada nova experiência. Como pode alguém combinar sons e fazer chorar? Ou visualizar movimentos do corpo que conectados a uma determinada música geram uma determinada emoção? Não entendo: apenas sinto.
Descobri que a companhia dava aulas de atividades circenses e pensei que poderia ser divertido participar de algo parecido, despretensiosamente. Certamente haveria escolas de circo por aqui.
A primeira vez que me pendurei num trapézio, há sete meses, não consegui levantar os pés do chão. Literalmente. Vi pessoas penduradas em outras, presas por voltas em um tecido, e tive certeza de que aquilo estava muito além do que eu, mero mortal, poderia alcançar.
No começo, tudo parece impossível. Você não se acha capaz, acha que jamais daria conta, que não foi feito para aquilo; aceita que nem todo mundo precisa ser capaz de tudo, que cada um tem sua habilidade. Então pensa em desistir.
Mas você decide ir em frente, dar uma chance. Aos poucos, vai se superando. Reconhece que tem limites, mas que tudo bem: dá pra trabalhar dentro deles. Alguns você supera, outros você aceita.
Você conhece novas pessoas: pessoas que estão na mesma que você, que riem dos seus limites, que se frustram, que te incentivam, que te ensinam. Aliás, você aprende (ou reaprende) a torcer pelos outros, a vibrar genuinamente pelas conquistas alheias.
Aos poucos, aquilo ocupa sua mente – o que a deixa livre de todo o resto. A três metros do chão, de ponta-cabeça, pendurado por uma corda ou um pedaço de pano, tudo o que vem à cabeça é manter-se firme, terminar o movimento, seguir para o próximo. Você vive no momento. Onde mais você faz isso hoje em dia?
Você sua, cansa, alonga, descobre músculos novos, tira força de onde não tem: nada no seu corpo fica indiferente.
E, é claro, você sente dor.
Todo movimento inclui uma parcela de dor. Primeiro você para no caminho. “Não vai dar...”. Você tenta de novo, falha de novo. Insiste, até que você esgota a dor ao ponto de ela não ter mais efeito: não porque ela sumiu, mas porque ela não te limita mais.
E talvez justamente por isso o resultado valha tanto a pena, e seja tão bonito.
Isso vale pro circo. E vale pra vida.




quinta-feira, 30 de março de 2017

O galpão

Ele era um homem alto. Tinha mais de um metro e noventa de altura e energia para derrubar um touro ou levantar um trem se precisasse. Mas naquele entardecer não precisava levantar um trem, nem sequer um carro ou uma caixa de papelão: simplesmente procurava por algo que não conseguia encontrar.

Tinha pressa. Entrou no galpão, certo de que o que buscava estava ali. Foi tateando as paredes em busca do interruptor, mas não o encontrou. Não fosse por uma discreta penumbra que vazava pela claraboia, estaria em uma total escuridão.

A sensação era de que o galpão há pouco estivera ocupado, movimentado, vivo, mas agora estava abandonado; um vazio de móveis e objetos escondidos no breu. Era possível que alguns vidros estivessem quebrados, talvez uma fina camada de pó se estivesse formando sobre os móveis, mas à medida que a noite caía e a claraboia tornava-se inútil, enxergar qualquer coisa tornava-se impossível.

Tateou as longas mesas, o alto das prateleiras. Nada. Agachou-se e passou a engatinhar para não topar nos móveis ou tropeçar nos desníveis do assoalho. Chegou até outra parede e encontrou uma tomada.

Ali certamente haveria um interruptor.

Apoiou-se nos tijolos e tentou levantar-se… mas já não podia mais. Por mais que tentasse, já não se equilibrava sobre os pés. Manteve-se no chão e esticou o braço o mais alto que pôde, mas não foi o suficiente. Logo ele, que sempre alcançou tudo que quis, agora se limitava a poucos centímetros de altura.

Se ao menos tivesse uma lanterna…

Moveu-se até um grande móvel, abriu a porta do armário que estava à sua altura e deparou-se com um baú de madeira e ferro. Tentou abri-lo, mas não tinha forças. Apalpou seus próprios braços com estranhamento: era possível que estivessem encolhendo?

Não tinha tempo para pensar naquilo. Precisava correr. Arrastou-se como pôde e puxou as gavetas que alcançava, uma após a outra. Como podiam parecer tão altas tão de repente? Uma delas caiu sobre ele, espalhando seu conteúdo pelo chão. Papéis e mais papéis… De que adiantavam os papéis se não enxergava as letras? Continuou tateando o solo até que sentiu algo que enfim lhe poderia ser útil.

Uma vela.

Precisava apenas de um fósforo para acendê-la e encontrar o que tanto buscava. Mas o que era mesmo que buscava? Seus pensamentos estavam confusos. Estava tão pequeno que qualquer um que entrasse ali – talvez até buscando o mesmo que ele – poderia pisá-lo e destruí-lo sem sequer perceber.

Uma dor nas costas começava a se alastrar desde a nuca até a lombar. Já não se reconhecia mais, e sentia-se feio. Enfiou-se debaixo de um gaveteiro na esperança de encontrar um fósforo, mas já tinha dúvidas se seria capaz de riscá-lo e acender a vela. Encontrou o nada.

Tentou seguir em frente. A essa altura queria apenas sair daquele lugar, mas percebeu que suas costas estavam presas sob a madeira áspera do móvel. Num esforço hercúleo, empurrou seu corpo diminuto para fora dali e só então percebeu as asas que se abriam atrás de seu corpo. Tentou movimentá-las, mas uma nova dor tomou conta de seu já irreconhecível corpo, dessa vez no abdômen. Olhou para baixo e notou um ponto brilhante, depois outro, e mais um, até que quase metade de seu corpo estivesse brilhando. Um verde forte, fluorescente.

Era um vaga-lume. 

E então deu dois passos e voou para fora do galpão pela fresta de um vidro quebrado, deixando atrás de si um rastro de luz.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Conectados

“Esqueceram de Mim” foi o primeiro filme que vi no cinema. A extinta sala 3 do cinema da Paris Filmes do Shopping Ibirapuera tinha pouco mais de 100 lugares — provavelmente uma das menores da cidade, mas eu não sabia disso. Muito menos sabia que 15 anos depois trabalharia naquela empresa que por tanto tempo estampou os ingressos dos filmes que vi na adolescência.

A sala estava lotada, e alguém sentou na poltrona à minha frente, bloqueando parte da minha visão. Migrei para a poltrona ao lado, dividindo o espaço com uma amiga. Do mesmo assento, assistimos fascinados às aventuras de Kevin McCallister, interpretado por aquele ator que não sabíamos o nome.

Era 1991 e, para um garoto de sete anos de idade, qualquer assunto que não estivesse nos livros da escola, na Barsa (onde?!) ou em alguma revista era completamente inacessível — incluindo o nome do ator que interpretava Kevin McCallister em “Esqueceram de Mim”.

Um ano inteiro se passou até que uma reportagem da revista Veja enfim revelou o grande mistério. 

Revista Veja. 15/01/92.

Disquei do telefone vermelho para o 571-6291 e minha colega de poltrona atendeu.

— Descobri o nome dele! Adivinha! Começa com M!

O mundo mudaria muito nas décadas seguintes, conectando pessoas e espalhando informações de forma inimaginável. Levei 20 minutos para encontrar a reportagem da foto, e pareceu uma eternidade. Hoje basta um clique — literalmente — para saber que Macaulay Culkin é fã de luta livre e World of Warcraft, mede 1,70m e divorciou-se após dois anos de casado.

Liv Tyler da capa do meu fichário hoje está no meu Instagram, onde descobri que seus filhos estão grandes demais para pijamas de bichinhos, e onde posso acompanhá-la enquanto anda a cavalo com a família. É possível até mesmo alfinetar um presidente e receber a resposta por Twitter minutos depois.

Aqueles que até recentemente estavam tão distantes de nós agora parecem estar aqui do lado, suas vidas conectadas às nossas, nossos celulares notificados a cada passo. Mas quanto dessa conexão é real?

Há alguns anos gravei a narração para o teaser de um longa-metragem em desenvolvimento nos EUA. O produtor/editor me conheceu pessoalmente alguns meses depois.

— Cara, parece que eu te conheço há séculos, de tanto que eu já ouvi sua voz! — disse ele no primeiro aperto de mãos.

Sinto que conheço profundamente o apresentador e os convidados de um programa semanal  — “Conectados”, vejam só — que legendo há mais de um ano para uma companhia aérea. Até que nos cruzamos pelos corredores e me dou conta de que nem sabem que eu existo. Por que saberiam?

Como roteirista de vídeos corporativos, já perdi a conta de quantas vezes escrevi a frase: “O mundo está cada vez mais conectado”.

Agora só falta dizer: conectado com o quê?



Outro dia fui ao cinema com a mesma amiga — cada um em sua poltrona. Não conseguia lembrar que outro filme o ator do trailer tinha feito. Puxei o celular, abri o IMDb e conferi toda sua filmografia. Depois coloquei o aparelho no modo avião para me desconectar do mundo e enchi a mão de pipoca, aguardando o filme começar. 


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Boyhood

Quando eu era pequeno, um dos grandes ritos de passagem era poder ir sozinho à lojinha de presentes e guloseimas que ficava literalmente a uma quadra do prédio onde eu morava. A infância era dividida entre poder/não poder ir sozinho até a Rosinha: uma distância que podia ser integralmente vigiada por pais atentos da janela da cozinha.
Fui uma criança de prédio. Brincava de pega-pega, alerta e esconde-esconde, que incluía as variações vale/não vale passar pela janelinha. Quebrei vidro, esfolei o joelho, brinquei na quadra até as luzes apagarem e alguém gritar do terraço que era hora de subir.
Outro dia tentei lembrar quando foi a última vez que brinquei de esconde-esconde. Não consegui. Em algum momento cresci, deixei de passar pela janelinha e, sem perceber, o “mãe, posso descer?” virou “mãe, tô saindo.”
A Rosinha fechou. Veio a fase do “não volta tarde”, do “não bebe muito”, do “avisa quando chegar”.
Tirei carta. Dei ré com meu Uno Mille numa Mitsubishi Station Wagon na frente de casa. “Pai, bati o carro.”
Fui morar fora. Fui morar sozinho.
E então os papéis se inverteram.
Isso ficou mais claro do que nunca quando decidi presentear minha mãe e minha tia (que somam 140 anos de idade) com ingressos para o show de um cantor italiano. Como um pai caridoso que vai atrás da meia-entrada para o filho adolescente, me vi em meio a uma odisseia que envolveu duas idas ao local do evento, um sistema fora do ar e clientes de meia-idade revoltados com o descaso.
— Mas que inferno isso! Vou processar todo mundo! — esbravejava um.
— Escuta, mas a gente não saiu de casa pra se divertir? — rebatia a esposa, tentando salvar o programa, fadado a falhar antes mesmo de começar.
No mesmo guichê, um pai comprava um ingresso de um show de rock para a filha.
— Ih, só tem lugar lá em cima. Paciência, vai esse mesmo. E ai dela se reclamar! Ainda vou ter que vir buscá-la depois do show — confidenciou ele ao senhor que ia processar todo mundo.
Horas depois, saio com um par de ingressos na mão e uma série de preocupações na cabeça. Se eu for levar, como vão voltar? Posso ficar no shopping esperando... Ah, elas voltam de táxi. Será que é perigoso? Elas não têm aplicativo… Ah, mas na porta sempre tem táxi. E se eu voltar pra buscar depois? Qualquer coisa tem minha prima. O que é Uber? Põe o cinto. Carrega o celular, hein? Liga quando chegar.
Sobreviveram. Radiantes.
Curioso pensar como o jogo vira, como o sol muda de lado. Não importa se você foi um grande líder, um grande executivo ou um grande boçal: se você tiver sorte — e esta é a grande ironia  se você tiver sorte, vai viver o suficiente para tomar um banho de humildade e perceber que você invariavelmente precisa do outro.
Hoje você dá conselhos, amanhã recebe. Hoje você cuida, amanhã é cuidado. Hoje você pode estar no alto da roda gigante, mas amanhã — se tiver sorte — ainda vai estar nela para apreciar a beleza da descida.

Crédito: The King Photography



Outro dia cheguei à casa dos meus pais e vi uma carta da prefeitura sobre a mesa.
— Seu pai levou outra multa, mas não dá bronca nele — disse minha mãe, enquanto tricotava.
Ele desceu as escadas, veio até mim, cauteloso.
— Viu, eu tomei uma multa porque eu tava sem cinto, mas já aprendi a lição. Não faço mais, tá bom?
E foi para a cozinha.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Um breve relato sobre o adeus

      Certa noite voltava para casa quando comecei a reparar quantos lugares que haviam sido importantes para mim na última década já não existiam mais. Fecharam. Mudaram de nome. Mudaram de nome e depois fecharam. Um bar que era meu reduto com dois amigos por tantas sextas-feiras hoje tem uma placa de aluga-se. Outro, que nos ensinou a apreciar cervejas importadas e foi palco de tantas comemorações, virou um hortifrúti, e agora “aluga-se para eventos”. Por alguns instantes, senti saudades de uma época que não volta mais, de pessoas que já não vejo com tanta frequência, mas logo senti a tranquilidade de saber que há ainda muitas épocas por vir.

      Na manhã seguinte, acordo com a mensagem de um desses amigos, que hoje vive nos EUA, informando que seu pai, após semanas no hospital, havia falecido. Dois dias depois, numa ensolarada manhã de domingo, os três amigos, que há tanto não se viam, reuniam-se no velório. Usávamos um quipá, assim como há cinco anos em seu casamento: uma das últimas celebrações que dividimos no país antes de sua mudança. 

      O clima, ao que possa surpreender, era de paz. Os três filhos levantaram-se perante o enorme grupo de amigos e familiares que viera prestar as últimas homenagens e puderam sorrir. Rir, até.

     Disseram que a morte do pai havia feito nascer a esperança do reencontro; que a dor é dilacerante, mas o amor é inabalável; que em meio a tanta adversidade, nunca se amaram tanto.

      É curioso observar como reagimos ao fim de uma vida... Dias depois, eu acordaria com a notícia do falecimento de um jovem conhecido no México, no mesmo dia em que um acidente aéreo tirou a vida de um time inteiro de futebol, entre tantos mais. 

      “Nos vimos no sábado! E no domingo, faleceu,” contou uma amiga mexicana, ainda processando o ocorrido. “Teria dito tanta coisa se soubesse que não o veria mais...” confessou outra. 

     Vídeos da alegria de um grupo de jogadores comemorando a classificação para um jogo que nunca viria emocionaram um país; imagens questionáveis da imprensa sobre o mesmo grupo uniram as redes em revolta. “Que falta de empatia!” gritam uns. “Que alienação!” reagem outros. Mas apesar da constante necessidade de polemizar que as redes sociais parecem suscitar, minha sensação é de que, seja bem de perto dos acontecimentos ou como meros espectadores, em meio a tanta adversidade, amamo-nos mais.

      Voltando para casa após o velório, começa a tocar no rádio o terceiro movimento da Sonata nº 2 em Si bemol da Opus 35 de Chopin: a marcha fúnebre. Apreciando a sincronicidade do momento, parei para ouvi-la. Descobri que passado o trecho mais conhecido da sonata, tão popularizado por desenhos animados, ela ganha um tom suave, apaziguante, quase alegre. Grave e agudo intercalam-se, misturando as emoções.

      Então pensei o quanto ela é apropriada: primeiro é preciso passar pela parte mais grave, mais difícil, para só então chegar à parte mais leve, mais bela. Sim, ela está lá. Basta deixar a sonata seguir.