terça-feira, 30 de julho de 2019

Mr. Jones

Era uma tarde de setembro do ano 2000. Os Jogos Olímpicos de Sidney (do qual o Brasil sairia sem medalhas de ouro) estavam a poucos dias do início. Eu era um estudante de intercâmbio do Ensino Médio na Beacon Hill Technology High School, que hoje dá lugar a um condomínio de casas residenciais, e aguardava a aula seguinte no pátio com uma amiga brasileira. Ela sacou seu novíssimo discman da mochila, dividiu o fone de ouvido comigo e disse que queria ouvir só mais uma música, antes que a pilha acabasse. A música era Mr. Jones

O sucesso do Counting Crows logo se tornou minha música favorita e não demorou até que amigos começassem a associá-la a mim quando ela tocava no rádio, na balada ou no karaokê. “Vai lá cantar Mr. Jones!” Como é normalmente o caso, só depois de ouvir e cantar excessivamente a música comecei a prestar atenção na letra. A princípio, nada muito profundo ou original: dois amigos num bar, divagando sobre como seria ser famoso e, consequentemente, conquistar as mulheres que quisessem. 

Adam Duritz tinha vinte e poucos anos e não era um astro do rock quando escreveu a música, portanto frases como I wanna be a rock star ou When I look at the television I wanna see myself staring right back at me eram apenas sonhos que compartilhava com o baixista Marty Jones. Porém, quando seus sonhos se tornaram realidade, ideias como When everybody loves me, I will never be lonely provaram-se bastante equivocadas.

Conquistar um sonho de infância assim, tão diretamente, é para poucos, e deve ser assustador perceber que a realidade é bem diferente da sua percepção. Adam Duritz chegou a declarar que o suicídio de Kurt Cobain  um astro de idade e sonhos similares aos seus, que tirou a própria vida na mesma época em que Mr. Jones atingia o auge  afetou bastante sua maneira de perceber a carreira. Perceber o mundo, aliás, sempre foi uma questão complexa para Adam Duritz, que declarou sofrer de uma doença mental que o faz ter uma percepção distorcida da realidade, como se os acontecimentos não fossem reais, o que o faz ter dificuldade de se conectar com as pessoas. Como lidar com a ironia de ser famoso e conectar-se com mundo todo e ao mesmo tempo sentir-se desconectado desse mundo? 

O escritor americano David Sedaris publicou há alguns anos um livro com trechos dos seus diários, que começam no início de sua vida adulta, quando era um estudante quase sempre sem dinheiro e envolvido com drogas, e chega até seus dias de sucesso, vivendo em Paris, viajando o mundo para divulgar seu trabalho. Há um momento mágico no livro, quando sua vida começa a seguir o caminho que ele sempre sonhou, seus livros publicados, suas peças lotadas: quando ele está exatamente onde sempre quis estar  e percebe isso. Mas o mundo não para nesse ponto alto e a vida segue. Quando antes ele precisava pedir carona e aplicar pequenos golpes para viajar pelo país, agora suas milhas dão upgrade para a classe executiva. No começo, ele diz, virava o rosto envergonhado para não encarar o julgamento dos passageiros da classe econômica que passavam pelo corredor, até que um dia viu-se enfurecido quando a Air France não pôde colocá-lo na primeira classe. “O que está acontecendo comigo?!”

Todos nós sonhamos coisas. Às vezes temos sucesso, às vezes não; às vezes aquilo era exatamente o que queríamos, às vezes não. Todos podemos revisitar e mudar nossos sonhos, e por isso é difícil imaginar ter de gritar seus sonhos antigos, suas crenças equivocadas, por elas estarem eternizadas na música de maior sucesso da sua banda. 

Há alguns anos, em uma versão acústica de Mr. Jones, Adam Duritz achou a solução para essa questão: ele simplesmente mudou a letra. 

De We all wanna be big stars, but we’ve got different reasons for that para …but then we get second thoughts about that.

De Believe in me para You should not believe in me.

De When everybody loves me, I will never be lonely para ...it’s just about as fucked up as you can be.

E termina: Can’t you hear me? Cause I’m screaming. I did not go outside yesterday. Don’t wake me cause I was dreaming, and I might just stay inside again today. Mr. Jones and me… we don’t see each other much anymore.


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Turistas

Morar em São Paulo significa, entre muitas outras coisas, estar acostumado à poluição, ao trânsito e a quatro estações em um dia: você sai de casa com frio e chega ao trabalho derretendo; sai de casa de regata e dez minutos depois está na chuva. São Paulo é também a cidade que tem muito de tudo: muito restaurante, muito espetáculo, muita gente, muita enchente. Só o que São Paulo não tem muito são turistas. 

Costumo ouvir que os europeus são rudes com turistas, o que sempre me pareceu uma grande injustiça. “Eles sustentam a cidade! Viajam 30 horas só pra ver um quadro minúsculo ou um prédio velho, como assim não gostam deles?!”, bradava. Até que cheguei à Europa.

Basta visitar qualquer cidade turística para perceber que os invasores estão por toda parte, ocupando calçadas, atrapalhando filas, passando vergonha para tirar fotos e amontoando-se em restaurantes considerados cinco estrelas pelo Trip Advisor

Florença, por exemplo, é uma verdadeira cidade cenográfica: lotada de construções fascinantes e pessoas que não moram ali. Um jovem fiorentino abre a porta de casa e é atropelado por um grupo de chineses com paus de selfie; ele consegue chegar até a esquina, mas é freado por uma família americana de bermuda que toma sorvete (e a calçada): “Oh meu Deus! Este não é o sorvete mais delicioso que você já tomou em toda sua vida, Josh?” O jovem tenta atravessar a rua estreita, mas um jovem casal de mochileiros dinamarqueses que está cruzando a Europa Ocidental a pé com um filho no colo e outro no ombro pede passagem. Como não odiá-los?

Ser turista é também deixar de lado algumas convenções sociais básicas, como não assistir a um espetáculo de música clássica com uma caixa de liquidificador no meio das pernas ou não gritar em igrejas. É também extrapolar todos os limites físicos a fim de aproveitar ao máximo cada segundo longe dos filhos, como fazia Silmara, na fila da Galleria dell’Accademia, com aqueles que deduzi ser sua irmã e seus sobrinhos. 

— Essa cidade é maravilhosa! Além do quê, tudo nasceu aqui. A arte nasceu onde? Em Firenze. Dante Alighieri? Firenze! Aquele outro famoso, gênio, como ele chama...?

— Galileu?

— Não, o outro.

— Leonardo da Vinci?

— Isso! Firenze também! Que lugar! Mas ainda bem que eu não trouxe os meninos. Alberto disse ontem que tava sofrendo lá, que eles não param de discutir. Ah, mas é bom, também, sabe? Assim aprende.

— E a perna, tia, melhorou?

— Ah, eu nem sinto mais. De manhã eu tomo um Tandrilax e já saio pra rua. Tô igual nova.

Os meios de transporte também são ótimos locais para observar turistas em seu habitat natural: o estrangeiro. Enquanto um casal de coreanos tenta descobrir como validar o tíquete do trem, dois argentinos debatem se é mesmo necessário validá-lo, e duas inglesas discutem qual o melhor nome italiano.

— Eu gosto de Lucca.

— Eu gosto de Giulia com G. Adoro como soa diferente de Julia. (Oi?)

O avião é outro ambiente ideal para análises e julgamentos. O A330-900 Neo oferece a decolagem mais silenciosa do mundo, mas nem a Airbus, fabricante da aeronave, nem a Rolls Royce, fabricante das turbinas, contavam com Edneia e Jéssica, na fileira 22, que desafiavam a paz a 10.000 metros de altitude. 

— Olha que dia lindo, Jéssica! Céu de brigadeiro, mesmo! — exclama Edneia, do alto dos seus 60 anos, com um forte sotaque carioca. — O céu se mistura com o mar, olha que lindo! E ali embaixo eu vejo a praia.

— Que praia, Edneia, aquilo não é praia, você tá se confundindo — contraria Jéssica, a mesma idade, o mesmo sotaque. 

— Mas você é foda com P-H, hein, Jéssica? E eu lá não sei reconhecer a praia? Parece que é a primeira vez que eu venho aqui — devolve Edneia, indignada. — Tem sempre que contrariar! Por isso eu nunca mais vou morar com ninguém. Ah, não tenho mais paciência.

— Ah, eu também não. Até se eu for pra um asilo, vou pagar pra não ter ninguém me enchendo o saco.

O avião avança poucas centenas de milhas. — Olha ali fora os carneirinhos! — continua Jéssica. 

— Que diabo de carneirinhos?

— Ah, Jéssica, as nuvens, que parecem uns carneirinhos. Mas tudo que eu falo você implica? Parece que nunca foi criança. Nunca contou carneirinho? 

— Claro que fui criança, mas você é criança demais. Um pouco débil, até. 

— Ah, Jéssica, vai cagar no mato sem papel!

Será que são um casal? 

Começa uma turbulência leve — e eu adoro turbulências. Em um voo diurno de nove horas, a perspectiva de umas bebidas caindo, um carrinho desgovernado, um passageiro em pânico — qualquer situação que tire o tédio! — é bem-vinda. Mas Edneia interrompia o momento com suas teorias aeronáuticas.

— É que a gente tá em cima do mar, aí balança mesmo. Mas o piloto é bom, ele tá desviando a rota um pouquinho pra não balançar tanto. Assim que a gente chegar em Mossoró, que já é terra, aí para, você vai ver. 

— Como você sabe disso, Edneia?

— É só olhar no mapa, Jessica, olha aí. Não tá acreditando? E, também, a gente tá em cima da asa, então balança mais porque qualquer lado que mexe, a asa pesa.

— Ih, preciso pegar meu remédio, mas tá na bolsa ali em cima.

— Não pode levantar agora, Jessica, não tá vendo o aviso do cinto?

— E por acaso eu falei que vou pegar AGORA? Eu só falei que preciso pegar, só isso. Eu sigo as regras.

Edneia ri. — Tá bom, Jessica. Logo você? Conta outra!

— As de segurança eu sigo, sim!

A turbulência termina. Elas não.

— Tava pensando aqui, Edneia, esse roteiro que a gente fez foi um caminho meio merda, né? A gente foi de Madri pra Copenhague, pra Hamburgo, pra Roma, pra Lisboa... Olha quanta volta. E eu achei os alemães tão grossos! Só porque parei ali um instantinho já ficavam: “vai, anda, tem fila, não pode parar!”

— Hein? O que você falou?

— Os alemães, ali em Hamburgo.

— O que que foi, Jessica?

— Mas que saco, tá surda?

— Não tá vendo que eu tô escutando o filme, Jéssica?! Aproveita pra ver um filme você também. Ainda tem três horas de voo!

— E eu lá tenho paciência pra ver filme? Na ida assisti 007. Achei tão babaca.

— Ah, isso é verdade, tem razão. 

Penso em também assistir a um filme, mas a realidade é interessante demais para que eu busque a ficção.

Quando enfim pousamos, as duas aplaudiram o brilhantismo do piloto, apanharam suas malas e partiram, uma para cada lado, em direção à vida real.

Nunca vou saber a relação entre as duas — seriam irmãs? amigas de infância? colegas de viagem? — mas esta é uma das belezas de viajar: sejam lugares, sejam pessoas, há sempre muito mais ali do que podemos absorver. A gente revela o que quer e capta o que consegue. O resto a gente inventa.


Quando estive em Paris há alguns anos, tentei ao máximo não cometer os dois piores crimes: falar diretamente em inglês com um atendente e parecer um turista. Comentei com meu anfitrião todas as minhas técnicas para me camuflar em meio aos parisienses e não ser alvo de batedores de carteiras e golpistas em geral — como recomendam as placas e sinais sonoros espalhados pelos pontos turísticos —, mas ele disse que meu esforço era em vão:

— Não dá pra disfarçar: os turistas caminham apreciando a cidade. Pra vocês, tudo é lindo.

Talvez isso não seja assim tão terrível.



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Ovo

Atualmente – e já há alguns anos, na verdade – fazer uma atividade cultural em São Paulo requer um nível considerável de planejamento e, muitas vezes, uma escolha entre divertir-se ou pagar a mensalidade do plano de saúde. Quando soube que o Cirque du Soleil estaria em São Paulo novamente, não pensei duas vezes antes de ligar para minha amiga de aventuras circenses, Zandra. “Venda seu carro. Vamos ao circo.”

O valor do ingresso, como de costume, era o suficiente para alimentar uma família de refugiados por cinco dias. Tudo bem, o ser humano vive semanas sem comida, já o Cirque du Soleil vem ao Brasil uma vez a cada dois anos, quando muito.

Para economizarmos algumas centenas de reais da taxa de conveniência e podermos comprar uma pipoca mini, resolvemos adquirir os ingressos diretamente na bilheteria. O conceito da taxa de conveniência, aliás, permanece um mistério para mim. Imprima seu ingresso com seu papel e tinta e sem incomodar nossos funcionários e pague apenas alguns milhares por isso.

O ponto de venda, assim como agências bancárias e supermercados, dispõe de três vezes mais caixas fechados do que abertos, com o único objetivo de gerar uma fila e fazer você pensar: porque não paguei a taxa de conveniência?

No guichê, uma senhora de cachecol e seu marido ficam decepcionados por não haver mais ingressos para o dia 8, no setor VIP. “Pode ser o setor premium, então”, resigna-se ela. “Senhora, dia 8 está completamente esgotado. Eu tenho pro dia 26, no setor 2, lateral” diz a atendente, inabalada. A senhora vira-se para o marido. “Ih, Mário, mas acho que dia 26 o Rogerinho não pode. Liga pra ele, vê se ele já vai ter voltado.” “Não tem mesmo nada dia 8?”, insiste ela, como se a atendente pudesse ter-se enganado e olhado os ingressos do show de Sandy & Júnior no lugar.

Um jovem casal se aproxima de um atendente alto e magro, que contava os segundos para sair dali e tomar um milkshake do Bobs. “Visão parcial? Mas o que isso quer dizer exatamente?”, pergunta o rapaz, refletindo se vale a pena investir dois meses de salário em um espetáculo parcial de circo. “Há uma coluna que pode interferir parcialmente na sua visão em alguns dos números.” Deve ser uma experiência interessante: você vê um acrobata jogando outro na maca russa, e deduz – mas nunca sabe ao certo – que ele foi pego pelo acrobata do outro lado.

Uma criança chora enquanto a mãe sai da fila para comprar um Baccio di Latte; outra volta com nuggets de frango do Burger King. Enquanto cada um na fila leva 30 minutos em frente ao atendente, frustrando-se com a indisponibilidade dos lugares desejados, Zandra e eu matamos o tempo discutindo nosso futuro. “Você sabe que em breve a gente não vai mais precisar pegar filas, né?”, revelo. Somos bem conectados no mundo circo e não tardará até que tenhamos convites para espetáculos do Cirque du Soleil em Las Vegas, Montreal e na China. Ingressos VIP, obviamente. Ela continua o devaneio: “Estarei trabalhando na Emirates, então a gente dá um pulo em Dubai depois segue pra China. Te falei que você vai estar na minha lista de closest friends para descontos nas passagens?” 

Nosso futuro é interrompido pela atendente de cabelos curtos e encaracolados, que por algum motivo inexplicável parece feliz de estar ali. Zandra e eu indicamos o dia, horário, setor e assentos. “A gente é muito eficiente”, nos gabamos, enquanto no guichê ao lado alguém perguntava se era possível dar zoom na tela para ver melhor o mapa de assentos do setor 1. “Se todo mundo fosse assim...”, comenta nossa atendente-cúmplice. Zandra pergunta se eles, os atendentes, conseguem assistir ao espetáculo. Ela confirma. “A gente se reveza para ver nos lugares que sobram”. Será que três visões parciais equivalem a uma completa?

No dia do espetáculo, o carro é estacionado longe o suficiente para fugir do caos ao sair, perto o suficiente de uma portaria para não sermos sequestrados, e longe o suficiente de uma árvore que pode cair caso chova. O ginásio está cheio. A garota ao meu lado PRECISA registrar tudo o que acontece com seu iPhone e enviar as fotos em tempo real para o seu namorado, com quem troca mensagens e emojis enquanto um acrobata russo equilibra-se em apenas uma mão numa estrutura metálica de dois metros de altura. 

E ali mesmo, sentado num ginásio de esportes que faz às vezes de picadeiro, cercado de vidas e histórias, todo entorno parece desaparecer. Não existe o antes, não existe o depois: existe o agora, onde homens e mulheres de todas as partes do globo unem-se para combinar a técnica mais refinada com luzes e cores e sons e texturas em movimentos quase sobre-humanos, com um único e fundamental objetivo: arrebatar nossos sentidos com a surpreendente beleza que o ser humano ainda é capaz de gerar.

Foto: Divulgação - Cirque du Soleil

domingo, 31 de março de 2019

Terça-feira

É um daqueles dias em que você decide que tudo bem almoçar um Mc Donald’s em plena terça-feira, com direito a batata grande e nuggets de seis com molho caipira, como você fazia na infância. Talvez até um sorvete. Não tem nada de errado com a sua manhã, mas também nada parece muito certo. Você foi resolver uma dessas burocracias da vida adulta e caminha por ruas que não costuma caminhar, onde pessoas parecem viver vidas reais  de alguma forma, mais reais que a sua. Pelo menos é uma quebra na sua rotina, e o dia está bonito, então você decide aproveitá-lo, nem que seja comendo um Mc Donald’s naquela loja que era o refúgio do “cheeseburger a um real toda quarta” na época do cursinho. Você lembra da loja maior do que era, como de costume acontece quando voltamos aos lugares do passado. Pensa nos amigos que dividiram aquelas mesas com você: cada um hoje em um lugar da vida e do mundo. Os sanduíches não são mais tão simples como eram naquela época e você decide testar uma das novidades do cardápio  acompanhado do nuggets de seis com molho caipira em que você está pensando desde que pegou o carro e decidiu que era um daqueles dias que tudo bem bem almoçar no Mc Donald’s em plena terça-feira. Enquanto aguarda seu pedido, você observa o entra e sai da loja, a gerente que destrava um caixa, a moça da limpeza que tira o lixo com um sorriso no rosto e um headset no ouvido. Uma mãe liga para o filho e exige que ele coma alguma coisa antes de ir fazer a prova e que ele mande uma mensagem para o pai. Você ainda não se decidiu sobre o sorvete e decide decidir depois. Você apanha sua bandeja, seus guardanapos e senta-se no balcão. Mal começa a molhar a batata no ketchup quando um garotinho se aproxima. Você está num banco alto e por isso o garotinho de cabelos descoloridos parece ainda menor e mais indefeso quando pede para você comprar um lanche. Por algum motivo você já sabia que isso iria acontecer e não pensa duas vezes antes de dizer que sim. Você pergunta qual sanduíche ele quer e ele aponta para o cartaz da promoção 2 por 1. Você desce do balcão, vai com ele até o caixa e acrescenta uma batata e uma coca-cola. A atendente sorri e pergunta o seu nome para anotar no pedido. Você sorri e pergunta o nome dele.

 Irã.

Irã como o enorme país do Oriente Médio, como o lar das civilizações mais antigas do mundo, como a terra cheia de riquezas sob a superfície e de conflitos sobre ela. Irã.

Ele aguarda seu lanche enquanto você volta para o balcão e come um nugget. A atendente sorridente entrega a bandeja e ele senta-se na mesa à sua frente, te agradece com um joinha e abre o sanduíche. Você pensa em ir sentar-se com ele, mas pensa que talvez seja invasivo; pensa em chamá-lo para sentar-se com você, mas de repente o oceano de distância entre vocês parece intransponível. Você pensa que não saberia o que dizer ou o que fazer, pensa que alguns minutos à mesma mesa não seriam suficientes para conectar o seu continente e o dele, e decide continuar ali, comendo seu sanduíche enquanto ele come o dele. Você pensa que pode pelo menos comprar um sorvete para ele quando for comprar o seu  ele certamente não espera por isso e ficará feliz. Mas antes de você terminar suas batatas ele já terminou as dele. Ele se levanta, com o sanduíche e a coca-cola ainda em mãos, te agradece novamente e sai pela porta que entrou, desaparecendo na avenida. Você termina o sanduíche, o nugget, a batata; joga as embalagens no lixo que a moça sorridente acabou de limpar e parte. Você passa pelo caixa em direção à saída e já não quer mais tomar um sorvete. Não tem nada de errado com a sua tarde, mas também nada parece muito certo.



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Permanente

Quando estava na terceira série, recebi a lista de materiais para o ano letivo e, em meio a réguas de acrílico, lápis-de-cor e cadernos ¼ capa dura de 48 folhas, havia um par de itens que me deixou muito empolgado: canetas. 

Minha diminuta vida acadêmica até então incluía apenas escritos com lápis HB, que ofereciam a acolhedora propriedade de poderem ser apagados a bel-prazer a qualquer risco acidental ou tigela com j. Mas agora as coisas seriam diferentes! Os erros em canetas Faber-Castell azul e verde estariam lá para sempre, talvez riscados, talvez com alguma correção tosca, mas sempre visíveis. Permanentes. 

À parte dos dentes de leite (“quebrou, mas tudo bem, depois nasce outro!”) não me lembro de outra situação na infância com essa divisão tão clara de “antes era mentirinha, agora tá valendo!”. Na vida adulta, então, nem se fala.

Na faculdade, fui uma das últimas turmas a ter aula de montagem com negativos de cinema. “A relação com as decisões é diferente”, dizia a professora. “Uma vez que você cortou o negativo, não tem volta. Você pode colar de novo, mas já não é a mesma coisa.” Hoje você vai e vem na timeline, cortando livremente, a um Ctrl+Z de qualquer conserto. Não é preciso refletir antes de agir.

Fico imaginando quão diferente era o processo dos escritores que datilografavam em máquinas de escrever, cada letra perpetuamente marcada na folha, fosse ela para o texto final ou para o cesto de lixo.

Não era diferente com as fotografias. Os passeios de escola eram acompanhados por um filme de 12 poses; um aniversário, de 24; um fim de semana na praia, de 36. Os registros tinham de ser pensados, refletidos. Havia limitações: o número de poses, o valor da revelação; e ainda era necessário esperar — algumas horas, alguns dias — para ver a imagem final: tudo muito diferente das sete opções de foto que tiramos do grupo hoje em dia, que rodam pelos grupos de WhatsApp por algumas horas e depois desaparecem num buraco negro, como diria minha mãe. Queremos tanto registrar o momento para que ele dure para sempre, mas depois raramente voltamos a ele: basta a (falsa) sensação de que ele é eterno, de que pode ser vivido depois, se eu quiser — mesmo que eu provavelmente não vá querer. 

Tudo hoje parece ser feito para ser reversível. O permanente assusta: seja um emprego, um relacionamento, uma moradia. “Mas eu vou ficar aqui PRA SEMPRE!? E se aparecer uma opção melhor?” Cada vez menos nos preparamos para qualquer tipo de para sempre, mas, ao mesmo tempo, o incerto e o imprevisível também não nos acolhem. Exigimos tudo: liberdade, opções, mas também algo sólido em que nos apoiar, algo que sempre esteja lá — e meras tatuagens não dão conta do recado.

Outro dia fui visitar uma amiga de infância que estava prestes a ter um filho — uma das poucas coisas verdadeiramente permanentes dos tempos atuais. 

— Como você conseguiu continuar amigo dela até hoje? — perguntou minha sobrinha adolescente. 

A resposta não veio imediatamente. Como, afinal, foi possível manter amizades por 20, 30 anos, grande parte deles sem Facebook, WhatsApp ou qualquer rede social que (supostamente) nos mantivesse conectados? 

Em termos práticos, respondi que foi me lembrando de aniversários todo ano (às vezes anotando na agenda física), ligando para dar Feliz Natal, criando eventos (reais) para reunir as pessoas. Mas por trás disso esteve sempre algo mais profundo: a vontade de manter as amizades vivas, a noção de que a quantidade de bons amigos (ao contrário do que podem dizer likes e followers) é limitada como um filme de 12 poses. Era mais difícil encontrar e reencontrar pessoas, por isso sempre foi fundamental mantê-las no nosso convívio e não descartá-las como uma foto desfocada do jantar passado.

Com tantas opções à disposição, nunca foi tão fácil trocar: trocar de amigo, de emprego, de país, de amante. Para que consertar a sola do sapato se eu posso comprar um novo? O para sempre deu lugar ao eterno enquanto dure; o praticar a lápis deu lugar a rabiscos direto a caneta, com um pote de liquid paper sempre a mão. E nessa longa trilha entre a segurança do permanente e a leveza do efêmero, caminhamos cautelosos (ou não), cientes (ou não) do abismo do vazio a poucos metros de cada passo.